Perto do final do filme “O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei”, uma cena crucial acontece dentro de uma torre do mal. Frodo, em seu caminho para Mordor para destruir o anel do poder — um símbolo conectado à fonte do mal — está aprisionado e em estado comatoso após ser ferroado por uma aranha gigante. Parece ser o fim para Frodo. Tudo aponta para o triunfo final do mal. Então, de repente, os orcs começam a matar uns aos outros por causa da camisa de mithril de Frodo. Esse evento dizima a guarda da torre e LOR retrata a autodestruição do mal, dando passagem para Sam salvar Frodo e eles continuarem sua jornada. O anel do poder é finalmente destruído, e o mal erradicado. 
Tolkien retrata bem a luta entre o bem e o mal como parte da nossa atual realidade humana quebrada. Essa luta é um fato universal com o qual temos que lidar constantemente deste lado do retorno do Rei Jesus. Por razões óbvias, o mal é o lado sombrio dessa realidade. E, ainda assim, essa é a parte da nossa realidade caída que está passando, que um dia não estará mais presente conosco nem nos afligirá. Como costumo dizer, as sementes do mal não são eternas; entretanto, as sementes do bem são. Somente o “bem”, como uma extensão da própria natureza de Deus e como uma declaração da parte de Deus sobre a verdadeira natureza das coisas na Criação (Gn1), permanecerá para sempre.
O mal é destrutivo por natureza
A erradicação do mal na Consumação tem a ver com a própria natureza do mal. A natureza do mal é destruir. Jesus parece corroborar isso ao se referir ao diabo — a essência e a personificação do mal — como o “ladrão que vem apenas para roubar, matar e destruir” (João 10:10). Porque a natureza do mal é destruir, em algum momento o mal se torna tão voraz que, não conseguindo destruir e erradicar o que é bom, começa a destruir e consumir a si mesmo. Além disso, ao fazer isso, acaba criando uma plataforma para que o bem se reafirme. Será que é isso que está acontecendo agora nas diferentes esferas da sociedade? 
O mal cria e opera diferentes agendas, movido principalmente por uma negação de Deus, isto é, uma negação de quem Ele é, do que Ele representa e do que Ele está fazendo e promete fazer no mundo. Por um lado, a Bíblia afirma claramente que Deus ama o mundo. [Veja “O que a Bíblia diz sobre amar o mundo?” ed.] Mas o termo “mundo” também é usado de outra forma, isto é, como sistema do mundo, uma influência maligna. Nesse sentido, João, o apóstolo, usa o termo para dizer que o sistema maligno do mundo com sua agenda está passando: “Ora, o mundo passa, bem como a sua cobiça; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente” (1 João 2:17). Deus e a agenda do Seu Reino são a única realidade que permanecerá para sempre.
Mal: uma realidade falsificada
O mal é uma parte intrínseca da nossa realidade caída. Ele está definitivamente presente na nossa experiência humana diária. No entanto, não é A REALIDADE ÚLTIMA. O mal é, na verdade, uma realidade falsificada que às vezes parece intransponível para nós no presente. Mas o mal não tem base na REALIDADE ÚLTIMA. Ele passará. O mal é por natureza uma realidade falsificada de ‘não-bem’, ‘não-beleza’, ‘não-verdade’. Assim como a escuridão é a ausência de luz, e o mal é uma realidade falsificada como a ausência da verdade, o mal é a ausência não apenas do bem, mas de Deus. O mal não tem existência intrínseca sustentável em si mesmo. Na verdade, não há REALIDADE alternativa que possa sustentar a vida tanto agora quanto eternamente além de Deus e do que emana dEle. Bem, luz e verdade são todos parte da verdadeira realidade última que durará eternamente porque fluem do próprio Deus, que é a fonte eternamente existente dessa única realidade verdadeira e última.
O que então parece paradoxal é, na verdade, parte de uma realidade maior do Reino: porque a natureza do mal é destruir, em algum momento o mal acaba se voltando contra si mesmo e se consumindo. E, ao fazer isso, também serve aos propósitos de Deus de avançar a agenda do Seu Reino. Isso está aberto à discussão e não temos espaço aqui para fazer justiça ao tema, mas uma parte importante dessa verdade está na interação entre a soberania de Deus e a liberdade humana. A liberdade individual faz parte da essência do que significa ser criado à imagem de Deus. Nossas escolhas não infringem a soberania de Deus. No entanto, ideias, escolhas e ações têm consequências.
Somos agentes da cultura do Reino
Diante de tudo isso, qual é então o nosso desafio e a nossa parte na missão? É importante dizer que, apesar de tudo isso, não estamos esperando o mal se voltar contra si mesmo para então fazermos a nossa parte no avanço do Reino de Deus. Nós avançamos e respondemos em fé à obra de Deus, crendo que fomos chamados por Deus para nos unirmos a Ele em Sua batalha e para fazermos a nossa parte em Sua história. Nossa escolha presente é sermos agentes de Deus e do Seu Reino nas diferentes esferas onde Ele nos posicionou e infundir o mundo com mais cultura do Reino — verdade, bondade e beleza — todos os dias. É, em última análise, fazendo isso que vencemos o mal. E, ao fazer isso, também olhamos para frente e nos aproximamos daquele dia em que o Rei retornará e a realidade do Reino será plena e eternamente estabelecida, quando “todo joelho se dobrará… e toda língua confessará que Jesus Cristo é Senhor, para a glória de Deus Pai” (Fp 2:10,11).
Assim, tendo em mente a nossa cosmovisão bíblica, devemos operar intencionalmente na plataforma da redenção e não na “realidade falsificada” caída. A plataforma da redenção é a única realidade que vence o mal. Como João e Paulo nos lembram: “A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela” (João 1:5). “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12:21).
Por Nelson Monteiro (8 de abril de 2019).
Coordenador de Desenvolvimento
Aliança de Discipuladores de Nações

